O SIMBOLISMO MÁGICO-RELIGIOSO DOS BÉTILOS E DAS PEDRAS ORACULARES
No actualmente chamado Cabo de S. Vicente-Sagres viam-se outrora pedras sagradas, junto das quais se celebravam ritualmente certas cerimónias religiosas. Movers relaciona estas pedras com o culto dos bétilos. Segundo Roscher, os bétilos eram aerólitos, e supunha-se que neles existia vida divina, pelo que em certos lugares sagrados os veneravam, ungiam e coroavam.
Estas pedras tinham, sem dúvida, um simbolismo mágico-religioso.
“Em todas as épocas, escreve Leite de Vasconcelos, as pedras foram tidas, em certas circunstâncias, como divindades ou símbolos delas." Estas pedras, no que se refere a Portugal, encontram-se um pouco por todo o território, mas com especial incidência no Alentejo.
O bétilo é um termo de origem semítica (Beith-el) que significa “Casa de Deus”. Trata-se de pedras sagradas que eram um dos receptáculos da potência divina, como o Omphalos de Delfos. Simbolizam a união entre dois níveis de existência, sejam eles o Céu e a Terra, ou Deus e o Homem.
A pedra erguida, seja ela o linga hindu, o bétilo semítico, o menir céltico, o omphalos grego, o obelisco egípcio, é um símbolo universal, e concebido desde o começo como “Centro da Terra”, por onde passa o Eixo do Mundo ou Árvore cósmica que faz a comunicação entre o mundo dos mortos, o mundo dos vivos e o mundo dos deuses.
As pedras podem ser “carregadas” magneticamente, e os bétilos ou menires, quando se encontram no ponto de intersecção das energias cósmicas e telúricas, e são activados por rituais mágico-religiosos, funcionam como agulhas vitalizadoras dos pontos sensíveis ou chakras da Terra. É por isso que existem tradições em todo o mundo sobre pedras oraculares, e pedras que operam prodígios tanto no domínio da saúde como da fertilidade. Evidentemente que os construtores de dólmens e menires tinham profundos conhecimentos da anatomia terrestre, e só assim se explica o gigantesco esforço que foi necessário para a trasladação dos megálitos. Hoje só nos restam as suas ruínas e as tradições que sobreviveram ao império do tempo.
Extracto de "Universo Mágico e Simbólico de Portugal", Eduardo Amarante
A "ARCA DE NOÉ" NA SERRA DO ALVÃO
“Na Lusitânia, onde se inclui grande parte do território português, também existiam druidas, os quais, inclusive, faziam muitas referências ao dilúvio universal, falando mesmo de 7 criações e de 7 destruições.
Na Serra do Alvão existe uma pedra a que os historiadores
chamam “Arca de Noé” que, aliada a inúmeras tradições orais, completa o quadro
de referências a um dilúvio ocorrido em tempos imemoriais. Actualmente, esta
sabedoria antiga perdeu-se e a nossa visão do mundo, tão materialista e
consumista, turva o nosso olhar quando observamos a natureza e o céu, reduzindo
toda a ciência a um objectivo de lucro e de benefício imediato.”
in "Universo Mágico e Simbólico de Portugal", Eduardo Amarante
in "Universo Mágico e Simbólico de Portugal", Eduardo Amarante
O CARNAVAL E O SEU SIMBOLISMO
“O Carnaval, mais conhecido no meio rural como Entrudo
(introitus, entrada) é um rito de passagem de um tempo velho para um tempo
novo. Teve a sua última forma expressa nas Saturnais romanas, que
compreendiam um conjunto de ritos visando a expulsão das forças malignas do
Inverno, em vista da renovação da natureza.
Trata-se, fundamentalmente, de uma cerimónia de
purificação de fim de Inverno (a morte que precede a vida) para dar início a um
novo ciclo de fertilidade.
Originariamente, nessa ocasião acontecia um conjunto
de ritos, tais como purgações, procissões mascaradas (as máscaras representam as
almas dos mortos que apelam à vida, e a morte do Inverno), extinção e
reactivação do fogo, com vista à destruição de tudo o que representava o tempo
passado, para dar lugar, com o reavivar do fogo, à criação, à restauração das
formas.
Estes dias de festa são caracterizados por uma
licenciosidade sem malícia que funciona como uma catarse colectiva (abolição
das formas, regresso ao caos, prenúncio de uma nova ordem, de um renascimento
colectivo), onde se assiste à exteriorização da própria alegria. Nas aldeias de
Portugal esta festa é “inteiramente espontânea e desorganizada. O trabalho é
interrompido durante os três dias gordos, a ruptura com o quotidiano é total.
Em terras transmontanas, os festejos dos três dias de
Entrudo correspondem às Bacanais de Março. Celebrizam-se pelas grandes
comezainas, mascaradas e bailes.
O Carnaval é a expressão de antigos cultos agrários
associados ao Sol. Em certas localidades queima-se ou mata-se o Meco, figura de
palha que simboliza o Inverno ou a morte invernal da natureza. Desse modo, esta
festividade aparece como vestígio remoto das cerimónias de purificação das
forças malignas do Inverno, com vista à renovação da vegetação, cerimónias
essas que, reforçamos, tiveram sua última forma de expressão nas Saturnais
romanas.
Originariamente comportavam o sacrifício anual do Rei,
que transparece nos actuais enterros do Entrudo nas suas várias formas, nas
lutas do Verão e do Inverno, expulsões da Morte, etc., e caracterizavam-se pela
sua total licenciosidade, prenunciando magicamente a alegria causada pela
abundância que se adivinhava.
O Carnaval mergulha a sua raiz mais funda numa
cerimónia de carácter religioso em vista da fertilidade.” – Eduardo Amarante
SINTRA, A SERRA DA LUA
A santificação do lugar é muito
anterior à vinda dos Romanos para a Península Ibérica. Nos tempos
proto-históricos, este monte sagrado situado nas proximidades de Lisboa tinha o
nome de Serra da Lua. Da época romana
temos, também, da região de Sintra, inscrições consagradas ao Sol e à Lua. “Não
seria de estranhar, escreve Leite de Vasconcelos, que os Fenícios ali tivessem
um santuário com a invocação da Lua, como decerto os tinham no Sacro
Promontório em honra de outros deuses: em tal caso o respectivo nome da
divindade seria Astarte, deusa semítica da Lua e do oceano, a que os Gregos
fizeram corresponder Afrodite.”[1]
Etimologicamente, a palavra Sintra provém de Sin, nome que os Babilónios davam à Lua e do qual os hebreus
extraíram SINAI (do caldeu SIN-AI = Monte da Lua). O sufixo TRA (SIN + TRA),
que significa três, foi acrescentado pelos antigos Lusos, para, dessa forma,
designarem “o conjunto de três coisas, qualidades ou atributos da deusa Sintra,
no seu aspecto de Lua no Céu, Diana na Terra e Hécate no Inferno.”[2]
OS LUSITANOS E A CRENÇA NA IMORTALIDADE DA ALMA
“A religião dos Lusitanos
era panteísta, sendo mais que provável a existência de um “colégio” sacerdotal
à semelhança do druidismo celta.”
“Os Lusitanos tinham a
firme crença na imortalidade da alma. Encaravam a morte com uma grande
tranquilidade, o que contrasta bem com o temor supersticioso que este evento
natural representa nos nossos dias, e isso devia-se à firme convicção que
tinham na realidade da reencarnação. Davam uma grande importância aos cultos
funerários, os quais tinham por objectivo assegurar, nas melhores condições
possíveis, a passagem da alma do plano terrestre à sua nova morada etérea, onde
iria permanecer até ao momento de regressar ao convívio com os mortais. É claro
que a constatação desta “outra realidade” dava às suas existências um sentido
mais heróico e ritualista, bem distante, por certo, das angústias existenciais
do nosso tempo.”
in Eduardo Amarante, "Universo Mágico e Simbólico de Portugal"
DAS ORIGENS DO PENSAMENTO MÍTICO AO NOVO ESPÍRITO ANTROPOLÓGICO
Até há bem pouco tempo entendia-se por “pensamento
mítico” o modo de pensar – que se reflectia em práticas mágico-religiosas – das
sociedades arcaicas situadas nos últimos degraus da civilização. Pensava-se,
então, que o mito não passava de uma fábula sem qualquer conteúdo real. O mito
seria o modo pelo qual mentes infantis e supersticiosas procuravam explicar os
fenómenos naturais que presenciavam a cada passo (como seja o relâmpago, o
trovão, etc.) sem poderem descortinar as suas causas e, por isso, temiam-nos.
Por outras palavras, o mito não seria mais do que o modo de expressão do homem
primitivo que via em tudo aquilo que não compreendia fenómenos produzidos por
forças sobrenaturais que ele, temeroso, venerava e cultuava, fazendo libações e
sacrifícios a fim de que esses poderes
deificados lhe manifestassem o seu agrado através de dádivas (chuva,
fertilidade, etc.) ou, pelo menos, o não castigassem por meio de todo o tipo de
calamidades.
As chamadas “mitologias” exprimiriam
esta maneira de pensar do homem de mentalidade primitiva, se bem que de uma
forma mais elaborada. Assim, por exemplo, as mitologias grega, ou suméria,
etc., não passariam de uma espécie de “contos de fadas”, de inocentes mentiras
em que acreditaram piedosamente milhões de pessoas durante milhares de anos. O
interesse da sua divulgação actual reduzir-se-ia à esfera meramente cultural,
com comentários bem explícitos sobre o grau de superstição dessas gentes, para
que não restasse a menor sombra de dúvida no espírito daquele que se iniciasse
no estudo das antigas culturas. Curioso conceito de “cultura” é este que se
fundamenta em pressupostos e em dogmas. Para que serve saber, perguntamos, se a
cultura que nos é fornecida, em vez de estimular a reflexão é um meio de
imposição de crenças tão efémeras como o nosso próprio século. A vaidade
humana, que impede reconhecer que errámos, tem sido o maior obstáculo ao
verdadeiro progresso da Humanidade.
Começa a ser evidente o absurdo que é
pensar que homens como Sócrates, Platão, Pachacutec, etc., estivessem imbuídos
de mentalidade primitiva. Por outro lado, e paralelamente a isto, os avanços da
Hermenêutica e da própria Antropologia forçaram a uma revisão do conceito de mito, e os aturados estudos efectuados
nas últimas décadas em torno do pensamento mítico no seio das sociedades
primitivas por especialistas como Mircea Eliade, Malinowski ou Gilbert Durand,
a par da valorização do pensamento simbólico-analógico produziram,
necessariamente, os seus efeitos positivos.
Creio que se está a processar uma
autêntica revolução de mentalidades, cujos resultados se verão num futuro não
muito distante.
Era necessário e inevitável que isto
viesse a suceder. A nossa época perdeu as suas raízes. Sentimo-nos
desenraizados e esse sentimento engendra angústia e loucura. Vive-se
perigosamente num ambiente de instabilidade em que tudo foi posto em causa: os
sonhos, as ideias, as crenças e os costumes. Não se pode viver assim durante
muito tempo. Por isso se fala tanto em evasão, em liberdade, em crise.
Pressentimos que algo vai mudar e, embora a maioria – como desde sempre todas
as maiorias –, prefira não pensar e vá vivendo com o que tem e como pode “à
espera de melhores dias”, há os que acreditam num “Fim do Mundo” próximo e
outros, mais optimistas, numa próxima “Idade de Ouro”. Surge de novo o
interesse por velhas superstições e as outrora “ciências malditas”, como a
Astrologia, têm cada vez mais adeptos e já são estudadas em algumas
universidades. Aparece, renascido das cinzas, o mito a impregnar o ambiente
social. Na verdade, como demonstra M. Eliade, o mito nunca deixou de existir,
de impregnar o homem, nem mesmo nos tempos modernos; simplesmente caiu na
esfera do profano no seio de uma sociedade dessacralizada. Agora renasce,
purificado pelo fogo, como um apelo atávico do Homem em busca das suas raízes.
Uma época de crise é uma época de
mudança, como indica a própria etimologia da palavra. Cremos que muita coisa
irá mudar, mas tudo será para nosso bem, visto existir um arquétipo evolutivo,
ou seja, um plano cósmico que se vislumbra melhor precisamente nas charneiras
da História.
Nas raízes da História está a chave que
abre as portas do futuro. Por isso vamos dar ouvidos ao apelo que nos vem do
mais fundo dos tempos e mergulhar, livres de tabus e preconceitos, no ambiente
acolhedor do mito.
1.
O sagrado e o mito
O mito contém na sua raiz etimológica a
própria ideia de “mistério”. Com efeito, a presença do mito é uma constante nas
sociedades de corte iniciático. Para Luc Benoist[1]
“o desenvolvimento de uma verdade doutrinal em mito não é uma fábula, visto que
o vocábulo fábula provém de uma outra raiz que significa palavra (fabula), enquanto o vocábulo mito provém
de uma outra raiz que significa mudo e silencioso (mutus). Ora esta ideia de silêncio prende-se às coisas que, pela
sua própria natureza, são inexprimíveis a não ser por símbolos. Mito e mistério
emanam pois da mesma ideologia esotérica, cujo carácter provém da sua
primordialidade e da sua necessidade”. O mito é, por conseguinte, o relato de
uma história verdadeira, sagrada, que se situa for a dos limites espacio-temporais.
Daí o seu carácter subjectivo que actua nos domínios do inconsciente e que,
portanto, é reversível. Na opinião de C. G. Jung o “inconsciente colectivo”
precede a psique individual. Quer isto dizer que o mito é o móbil determinante
do comportamento do homem. Viver um mito significa ter acesso à esfera do
inconsciente que é um verdadeiro percurso iniciático. “Viver os mitos – escreve
M. Eliade – implica uma experiência verdadeiramente ‘religiosa’, visto que se
distingue da experiência vulgar da vida quotodiana”[2].
E, para o homem religioso o essencial precede sempre a existência.
O mito designa uma “história
verdadeira”, porque sagrada, quer dizer um acontecimento primordial que teve
lugar no começo do tempo. “O homem é aquilo que é hoje porque uma série de acontecimentos
ocorreram ab origine. Os mitos
contam-lhe esses acontecimentos e, ao fazê-lo, explicam-lhe como e por que
razão ele foi constituído desse modo. Para o homem religioso, a existência
real, autêntica, começa no momento em que recebe a comunicação dessa história
primordial e assume as suas consequências. Há sempre história divina, pois as
personagens são os Seres Sobrenaturais e os Antepassados míticos.”[3]
Para B. Malinowski “o mito é um
elemento essencial da civilização humana; longe de ser uma vã fabulação, é,
pelo contrário, uma realidade viva, à qual constantemente se recorre, não é uma
teoria abstracta nem uma ostentação de imagens, mas uma verdadeira codoficação
da religião primitiva e da sabedoria prática.”[4]
Vemos, assim, que está definitivamente
ultrapassada a ideia de que os mitos não passavam de meras fabulações, poéticas
por vezes, mas desprovidas de conteúdo real. Ora, é precisamente o contrário
que sucede. Interpretar à letra um mito, objectivamente, equivale a destruír a
possibilidade de o entender. É verdade que hoje predomina o “racional”, porém,
convém recordar que o acesso ao mito, em si eminentemente subjectivo, nunca se
fará com esse instrumento. Por detrás do seu aspecto “fantasioso” o mito contém
uma verdade oculta, uma história verdadeira, porque se refere sempre a
realidades. Dizia o Imperador Juliano que “aquilo que nos mitos se apresenta
imverosímil é precisamente o que nos abre o caminho para a verdade. Na
realidade, quanto mais paradoxal e extraordinário for o enigma, tanto mais
parece avisar-nos que não devemos confiar na simples palavra, mas
esforçarmo-nos em torno da verdade oculta.”[5]
A importância dos mitos na história da
humanidade, e não apenas nas sociedades arcaicas é de tal ordem que, enquanto houver
história haverá mitos, independentemente de se ter ou não consciência deles.
Daí que não seja exagero afirmar ser impossível compreender a História,
qualquer que ela seja, sem os motores ocultos que a impulsionam, isto é, os
mitos.
Mircea Eliade salienta que “os mitos
são a forma mais geral e eficaz de perpetuar a consciência de um outro mundo,
de um além, seja ela o mundo divino ou o mundo dos Antepassados”[6].
E Van der Leeuw não hesita em afirmar que é suficiente “conhecer o mito para
compreender a vida.”[7]
11. O mito e o símbolo
Se o mito é uma Ideia Primordial, a
função do símbolo é de a tornar inteligível, de lha servir de “linguagem”. Dizia
Santo Isidoro que o símbolo é um signo que dá acesso a um conhecimento, ou
seja, é signo do invisível, do espiritual. E, neste contexto, Mircea Eliade escreve
que “o símbolo revela uma realidade sagrada ou cosmológica que nenhuma outra
‘manifestação’ poderia revelar.”[8]
Na sua etimologia – em grego sumbolon – a palavra símbolo anuncia a
ideia de continente e pode ser figurada por uma barca, receptáculo do sagrado.
O símbolo, na sua função mediadora, é o veículo de algo que, pelo seu carácter
atemporal deve ser preservado e intuído. Para M. M. Davy “a função do símbolo é
de despertar o homem e de conduzi-lo ao seu princípio original, quer dizer, ao
plano do sagrado no qual tudo é ordem, medida, proporção. Assim, o símbolo
permite ao homem atingir um nível inacessível à razão. Ele oferece um
ensinamento duplo, o de recordar o sentido de uma realidade e de indicar uma
via para chegar até ela”[9].
Acrescentamos que para Platão conhecer significa recordar, isto é, conhecer e
compreender o verdadeiro, o belo e o bom é, sobretudo, recordar-se, ter
reminiscências vivas de uma existência puramente espiritual, no outro mundo.[10]
O acesso à compreensão de um símbolo
varia consoante o nível de consciência daquele que o contempla. O símbolo em si
é invariável, mas a leitura que dele se pode extraír é tão diversa quão
diversos são os observadores. É por isso que os símbolos universais são uma
constante em todas as épocas e lugares geográficos, porque transmitem
realidades eternas alheias aos condicionalismos temporais. “Um mesmo símbolo,
por exemplo a cruz, será diversamente interpretado por um homem segundo as
diferentes idades do seu nascimento e do seu crescimento espiritual. O símbolo
não muda, mas a mensagem que ele oferece depende do estado de consciência
daquele que o capta”[11]. Assim o
símbolo, “na sua realidade profunda, atesta a presença do divino, exprime o
sagrado e, por esse facto, compara-se a uma revelação.”[12]
12. O mito e o rito
A palavra rito, segundo a sua
etimologia sânscrita (rita) significa
o que é conforme à ordem. Segundo Luc Benoist podemos definir um rito “como um
conjunto de gestos, respondendo a necessidades essenciais”, devendo eles “ser
executados seguindo uma certa euritmia. São gestos elementares que realizamos
todos os dias e que acompanham a nossa maneira de viver, de caminhar, de nos
vestir, de manifestar a nossa simpatia ou a nossa hostilidade”[13].
Para Eliade “um rito é a repetição de um fragmento do tempo original” por meio
do qual o homem das sociedades primitivas se insere no “tempo mítico”, tempo
esse que, acrescenta o mesmo autor, “é ‘criador’, no sentido de que é então, in illo tempore, que tiveram lugar a
criação e a organização do cosmos, da mesma forma que a revelação, pelos
deuses, ou pelos antepassados, ou pelos heróis civilizadores, de todas as
actividades arquetípicas”[14].
“O tempo original – adianta Eliade – serve de modelo para todos os tempos; o
que sucedeu um dia repete-se sem interrupção.” É por isso que “tudo quanto aos
olhos do homem moderno é verdadeiramente ‘histórico’, quer dizer, único e
irreversível, é considerado pelo primitivo como destituído de importância,
porque não tem precedente mítico-histórico.”[15]
Aproximando estas duas opiniões,
parece-nos ser correcto afirmar que um rito é um conjunto de gestos efectuados
segundo uma ordem, exprimindo uma atitude de interiorização pela repetição de
um modelo exemplar. Mito e rito são, pois, “as expressões complementares de um
mesmo destino, sendo o ritual o seu aspecto litúrgico e o mito a sua realização
através dos episódios de uma história vivida.”[16]
In Eduardo Amarante "Universo Mágico e Simbólico de Portugal", Apeiron Edições
[2] Mircea Eliade, Aspectos do Mito.
[3] Ibidem.
[4] B. Malinowski, Myth in Primitive
Psychology, Londres, 1926.
[5] Juliano Imp., Contr. Héracl. 217c.
[6] Mircea Eliade, o.c.
[7] Van der Leeuw, L’Homme Primitif
et la Religion, Paris, 1940.
[8] Mircea Eliade, Tratado de História das Religiões,
Lisboa, 1977.
[9] M.M Davy, Initiation a la Symboloque
Romane, Paris, 1977.
[10] Perante aqueles que
negavam a ressurreição dos mortos, Teófilo de Antioquia apelava para os
indícios (tekhméria) que Deus
colocara ao alcance deles nos grandes ritmos cósmicos: as estações, os dias e
as noites. Escrevia: “Não há ressurreição para as sementes e para os frutos?”
[11] M.M. Davy, o.c.
[12] Ibidem.
[13] Luc Benoist, o.c.
[14] Mircea Eliade, Tratado de História das Religiões.
[15] Ibidem.
[16] Luc Benoist, o.c.
AS “PROFECIAS” MAYAS E O SUPOSTO FIM DO MUNDO EM 21 DEZEMBRO 2012
Os sumérios, egípcios, hindus, chineses e os
próprios mayas mediam os ciclos de energias cósmicas (incluindo a solar e a lunar)
que transformam os campos de energia da Terra e, consequentemente, a vida
planetária. Estamos, presentemente, num desses ciclos e, segundo o Calendário
Maya, o ponto crítico de mudança é em 2012. Estes ciclos de energia actuam como
portais que se abrem para aqueles que estão preparados para alcançarem estados
mais elevados de consciência. Se essa oportunidade não for aproveitada,
ter-se-á de começar um novo ciclo até à abertura de um novo portal.
A primeira notícia que se
tem dos mayas data do ano 600 a.C., tempo em que há registos de simbologias
esculpidas em pedras. O seu florescimento ocorreu entre os séculos II e IX da
nossa Era. Sendo uma das mais antigas civilizações pré-colombianas, foram
exímios na arte, arquitectura e astronomia, tendo-se revelado mestres na
construção de cidades esplendorosas com os seus respectivos locais de culto,
templos e pirâmides. A sua civilização estendeu-se pelas planícies da Península
do Yucatán, onde hoje fica o México, por quase toda a Guatemala, parte
ocidental das Honduras, Belize e regiões limítrofes, tendo constituído uma das mais complexas e influentes culturas
da mesoamérica.
Na mesma altura
em que a Europa mergulhava na Idade das Trevas, os habitantes da mesoamérica
estudavam astronomia e astrologia. Para tal tinham dois calendários – o Haab e oTzolkin
– e um sofisticado sistema de escrita hieroglífica (os glifos mayas).
Por volta do ano
900, o antigo império Maya começou a sofrer um declínio de população, e os seus
sumptuosos centros urbanos foram abandonados por motivos ainda hoje
misteriosos.
Os mayas clássicos eram um povo com motivações
culturais e espirituais diferentes das nossas. Onde os modernos cientistas
detectaram experimentalmente os efeitos físicos das radiações de densidade que
varrem toda a Via Láctea, os mayas procuravam detectar experimentalmente
radiações de diferentes forças que influenciavam não só o nascimento e a
actividade das estrelas, como também o nascimento e a actividade das ideias.
Portanto, enquanto os cientistas modernos desenvolveram um modo de consciência
que lhes permite expressar os efeitos físicos dessas radiações, os mayas
desenvolveram uma consciência que lhes possibilitava expressar os efeitos
psíquicos dessas mesmas radiações.
O declínio da civilização maya, cujas cidades
monumentais foram inexplicavelmente abandonadas no século IX, como dissemos
atrás, poderá ter alguma relação com o facto do campo magnético solar e as
manchas solares se terem invertido precisamente nessa época. O fenómeno
provocou infertilidade e mutações genéticas na Terra e teve efeitos mais
severos nas regiões equatoriais. Além das deformações genéticas e da alteração na fertilidade feminina,
as actividades das manchas solares também podem ter causado uma grande seca na
região dos mayas, provocada pela redução do volume de água evaporada dos mares.
Segundo cálculos efectuados pela Ciência, o ciclo
de manchas solares é de 68.302 dias, e após 20 ciclos (20 x 68.302= 1.366.040
dias) o campo magnético solar sofre uma inclinação. A Terra tenta alinhar o seu
eixo magnético com o do Sol e também se inclina – o que pode causar catástrofes
de dimensões gigantescas no nosso planeta.
A
mudança de direcção do campo magnético solar, que acontece cinco vezes
em cada ciclo cósmico, é o que, para muitos, abalará o eixo da Terra, que
ficará sujeita a terramotos, enchentes, incêndios e erupções vulcânicas. O
próximo fim de ciclo ocorrerá em 2012 (Era do Jaguar).
Começamos, agora, a entender que a chamada
adoração ao Sol, tal como é atribuída aos antigos mayas, era, na realidade, o
reconhecimento de que o Sol lhes transmitia muito mais do que luz e calor.
Durante o período de conquista e ocupação
espanhola, muitos dos documentos dos nativos pré-colombianos foram destruídos.
Contudo, foram preservados alguns raros e preciosos manuscritos. O mais
importante desses manuscritos salvos da destruição é o Códice de Dresden. Escrito em glifos, foi descodificado na Alemanha
em 1880, tornando-se assim possível aos investigadores traduzir muitas
inscrições encontradas nos vetustos templos mayas.
Descobriu-se, então, que o Códice de Dresden
apresentava profundos conhecimentos astronómicos, com tabelas pormenorizadas
dos eclipses da Lua, entre outros fenómenos. Foi também aí encontrada a
evidência de dois ciclos anuais usados pelos mayas:
·
O calendário sagrado Tzolkin de 260 dias (venusiano), igualmente chamado relógio cósmico;
·
E o calendário Haab, de 365 dias (solar), baseado nos ciclos da Terra.
Constatou-se, ainda, que os mayas tinham um outro
sistema de contagem de dias, chamado “Nascimento de Vénus”. Este calendário era
dividido em meses (uinals) de 20
dias; e em anos (tuns) de 360 dias; e
ainda em longos períodos de 7.200 dias (katun),
de 144.000 dias (baktun) e de
2.880.000 dias (Pictun). Também se
veio a saber que o número 13 era magicamente importante para eles, pois
acreditavam que, com o nascimento de Vénus após 13 baktuns (aproximadamente 5.125 anos), chegar-se-ia ao final dos tempos
(fim de um ciclo). Para os mayas, a era actual começou em 13 de Agosto de 3.113
a.C. e deverá terminar, sensivelmente, a 21 de Dezembro de 2012, quando Vénus
desaparecer por detrás do horizonte ocidental, altura em que a constelação das Plêiades
“nascerá” a Oriente..
Segundo
o calendário maya, o Sistema Solar está em órbita em relação ao centro da Via
Láctea. Esta órbita tem um ciclo de 25.625 anos, divididos em 5 fases de 5.125
anos. A razão para esta divisão é que a cada 5.125 anos acontece o chamado
“pulso cósmico”, quando as ondas de energia emanam do centro da galáxia em
todas as direcções, atingindo também o Sol e influenciando o seu comportamento
como o dos planetas em sua órbita. No momento presente estamos a viver um
“pulso cósmico” que se iniciou em 1992 e deverá terminar em 2012 (duração de 20
anos).
Nestes
períodos de pulso cósmico são comuns
as tempestades solares que afectam os pólos e as linhas magnéticas da Terra,
causando diversas anomalias no comportamento planetário e no dos seus
habitantes.
A
intensidade das linhas magnéticas que cruzam o planeta de norte a sul diminui,
provocando a desorientação dos animais migratórios que se orientam pelos veios
magnéticos da Terra. Por sua vez, os pólos magnéticos tornam-se instáveis, com
repercussões nos instrumentos electrónicos de navegação aérea e marítima.
Essa
alteração do fluxo magnético planetário também tem uma influência notória sobre
o comportamento humano. Quando submetido a forças magnéticas de menor
intensidade, o homem tende a sintonizar-se com o inconsciente colectivo[1],
abrindo caminho para a depressão, a insanidade, a intolerância e a
incompreensão.
Para
sobreviver aos períodos de pulsos cósmicos, o homem deve sobrepor-se ao
inconsciente colectivo através da meditação e da espiritualização, procurando
um rumo para a sua vida que contemple acções comunitárias e filantrópicas e uma
interiorização que o leve a ser dono e senhor dos seus pensamentos e actos e
não arrastado pelas circunstâncias. Desta forma tornar-se-á um importante
obreiro do Bem no combate à ignorância colectiva e às paixões inferiores da
multidão. E, assim, contribuirá para inviabilizar o plano dos Senhores das
Trevas de instaurarem a escravatura global num mundo de ateísmo e miséria.
Como
já vimos anteriormente, o Zodíaco está dividido em doze signos, de 2.160 anos
cada um, chamados Era. Presentemente,
estamos no período de transição entre as eras de Peixes e de Aquário, chamado Vértice, que tem uma duração de 200 anos,
incluindo o último século da Era que findou e o primeiro da nova Era. A nova Era,
a de Aquário, será marcada pelo culto universal do Espírito Santo e da Mãe
Divina.
Os
mayas sabiam que o nosso Sol, Kinich Ahau,
é um ser vivo que respira e que, ciclicamente (a cada 5.125 anos), a Terra
vê-se afectada pelas mudanças do Astro-Rei mediante o deslocamento do seu eixo
de rotação. Previram que a partir desse movimento haveria grandes desastres.
Com
base nas suas observações, concluíram que a partir da data inicial da sua
civilização, desde o 4º Ahua, 8º Cumku, 3.113 a.C. ou seja, no ano 2012
d.C. (3.113+2.012=5.125), o Sol mudará a sua polaridade, o que irá provocar
grandes convulsões na Terra, que darão início a uma nova Era.
Os
mayas asseguravam que a sua civilização era a 5ª iluminada pelo Sol. Antes
haviam existido outras quatro civilizações que foram destruídas por grandes
cataclismos naturais. Entendiam que cada civilização é apenas um degrau para a
evolução da consciência colectiva da humanidade. Segundo eles, no último grande
cataclismo, a civilização[2]
foi destruída por uma grande inundação (Dilúvio), que deixou apenas alguns
sobreviventes, de quem eles eram os descendentes.
Alguns
autores, na sua grande maioria sensacionalistas, afirmam que esta portentosa
civilização pré-colombiana da mesoamérica terá deixado para o futuro uma
mensagem escrita na pedra contendo 7 profecias, sendo uma parte de advertência
e outra de esperança. A primeira, segundo eles, profetiza o que irá acontecer
nos próximos tempos e a segunda fala sobre as mudanças que devemos realizar,
sobretudo no nosso interior, a fim de impulsionarmos a humanidade, quer
individual quer colectivamente, para a nova era que se avizinha.
Facto
indesmentível é que todos nos apercebemos de que mudanças profundas estão a
acontecer e pressentimos que algo mais grave ainda está para vir. É a ameaça
constante de guerra, são os índices alarmantes de poluição, é a devastação dos
recursos naturais, é o buraco de ozono, são as alterações climatéricas, o
derretimento das calotas polares, as grandes inundações e os tsumanis, a intensidade e a
imprevisibilidade de tornados e furacões, para não falarmos do aumento
considerável da fome e da pobreza no mundo, acompanhadas pelo caos económico a
nível global, a inversão de valores, a falta de ética e de moral, a mentira, a
ausência de escrúpulos, a corrupção, as desigualdades crescentes, a injustiça…
A maioria dos livros sagrados das diferentes religiões relatam profecias que
têm, directa ou indirectamente, a ver com estes tempos conturbados e
“apocalípticos”.
Os
mayas, grandes matemáticos, astrónomos e astrólogos, previram, nos seus
cálculos, que o seu calendário terminaria em 2012 da era cristã. Mas, como
veremos mais adiante, trata-se apenas do final de um ciclo histórico e não de
uma profecia, já que os mayas não fizeram profecias sobre o ano 2012.in "Eduardo Amarante, "Profecias - Da interpretação do Fim do Mundo à vinda do Anticristo"
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