O Código de Moral entre os Incas



Os Incas tinham um código de moral quotidiana, que se expressava como uma saudação entre os cidadãos: não sejas mentiroso, não sejas ladrão, não sejas ocioso. Os que não respeitavam estas regras eram punidos. Uma das infracções morais mais graves era o acto de roubar, visto que no Tahuantinsuyo (Império) todos os cidadãos tinham o necessário para viver condignamente. Assim sendo, quem roubava não o fazia por necessidade, mas por cobiça e ociosidade. O castigo era cortar-lhe a mão com que praticara o delito.

O amplo e profundo conceito de solidariedade que prevalecia em todo o Império, ficava demonstrado sempre que ocorria alguma calamidade, como pestes, secas, inundações, destruição das colheitas. Nessa ocasião, decretava-se jejum e abstinência para todos os cidadãos, a fim de curar o Império do mal que o afectava.
Estas normas faziam parte da vida do povo, baseadas numa doutrina em que o exemplo era fundamental, sendo mais estrito para as classes altas.

A formação moral do povo era incutida na criança desde o seu nascimento, dando-se mais importância à prática do dever do que ao corpo propriamente dito. Na educação, ensinava-se as crianças a serem úteis ao Império sem causar dano a ninguém. Desde muito cedo era-lhes ensinado o sentido do dever e davam-se-lhes pequenos trabalhos, a fim de que tivessem sempre presente a ideia de que no Império todos deviam trabalhar. Enaltecia-se o heroísmo, a coragem e a honradez. Os guerreiros que venciam o medo e expunham as suas vidas pelo Império ascendiam à condição de “nobres por privilégio”.


Esta formação moral, aliada a uma disciplina estrita e a uma sábia organização social fez com que no Império não existissem ociosos, bem pelo contrário: todos trabalhavam para a sua própria subsistência e para a do soberano. As terras eram distribuídas, segundo o número de integrantes de cada família, para serem cultivadas. Desta forma fomentou-se a dádiva, o espírito de solidariedade, a fraternidade, bem como o amor ao trabalho como realização individual e colectiva.

in "O Império do Sol - Breve História dos Incas", Eduardo Amarante

MAMOA DE ALCALAR - MONUMENTO INICIÁTICO


"No lugar de Alcalar, freguesia da Mexilhoeira Grande, Portimão, encontra-se o complexo megalítico de Alcalar, constituído por cerca de 12 antas de corredor com vestígios de mamoa. Entre estas, realçamos aquela que consideramos ser uma das mais importantes mamoas peninsulares, que, felizmente, está a ser preservada pelas entidades responsáveis pelo património arqueológico nacional. Não entrando aqui em considerações quanto à estrutura e finalidade desse importante conjunto megalítico de Alcalar, uma vez que as interpretações oficiais padecem, no geral, dos preconceitos positivistas do séc. XIX, entendendo a história de uma forma linear e redutora do ponto de vista simbólico-transcendental, iremos directamente tratar da mamoa em questão. A mamoa – ou tumulus – é uma anta coberta de terra, confundindo-se na paisagem com uma colina; toma esse nome porque assemelha-se a um seio de mulher. E é precisamente nesse seio que se empreende o mistério da geração. Daí que, do ponto de vista mágico-simbólico, entrar numa mamoa equivale ao regressus ad uterum, um regresso ao útero da Terra-Mãe para voltar a nascer. O re-nascido, ou seja, aquele que nasceu de novo é, aquando das cerimónias efectuadas nas mamoas iniciáticas, um homem renovado, espiritualmente consciente, porque se iniciou nos mistérios da morte e renasceu para a vida. A mamoa de Alcalar tem todas as característica de ser um monumento iniciático, visto tratar-se de uma anta de corredor, com pequeno átrio e, no lado oposto, a câmara iniciática. A sua orientação é Nascente-Poente, encontrando-se a câmara a Oeste e a entrada a Leste. O indivíduo era deitado com a cabeça voltada para poente e os pés virados para nascente. Significando o poente a morte e o nascente a vida, o candidato, ao entrar na mamoa, símbolo do útero da Mãe-Terra, dirigia-se para o país dos mortos e, superadas as provas da iniciação, renascia voltado para o Sol nascente." - Eduardo Amarante

DANÇAS SAGRADAS E MARCIAIS ENTRE OS LUSITANOS


Sabe-se que entre os antigos iberos e povos do Oriente, uma das formas do culto externo era constituída pela dança; não qualquer dança, mas sim uma especial consagrada pelas fórmulas litúrgicas,"> que tinha passes, ritmos e cadências próprias, ou seja, uma dança sagrada. “Pela música – dizia o poeta – a essência dos deuses é visível e se comunica aos seres mortais, e os sentimentos dos homens tomam a forma de objectos animados”.

Antes dos bispos de Bragança as proscreverem, havia nas tradicionais festas das aldeias danças sagradas de carácter litúrgico e ao mesmo tempo marcial. Estas danças, infelizmente, desapareceram, restando apenas a dos Pauliteiros, ainda hoje executada em terras mirandesas.

Recuperando as nossas tradições, CANTEMOS A NOSSA LIBERDADE E A NOSSA IDENTIDADE. E com os nossos tambores e gaitas-de-foles, evoquemos os nossos símbolos e os nossos heróis. Eles indicar-nos-ão o caminho para libertarmos Portugal e a Europa pela via do Espírito Santo, isto é, da paz e da compreensão mútua.

CANTEMOS E ESPALHEMOS O NOSSO CANTO PELA EUROPA FORA. Cantemos em uníssono, imitando os nossos heróis lusitanos, que avançavam para a liberdade em passo cadenciado, ao som dos seus tambores e dos seus cânticos, e os inimigos do espírito e da dignidade humana tremerão (*).

(*) Tanto os Lusitanos das montanhas como os da planície tornaram-se famosos na arte da guerra. Diz Diodoro Sículo [Biblioteca Histórica, v, 34] que os Lusitanos marcham para a guerra com passo cadenciado, e cantando hinos.

In Eduardo Amarante "Universo Mágico e Simbólico de Portugal"

PROMONTÓRIO SAGRADO – CABO DE S. VICENTE/SAGRES



"Para os gregos e romanos era o Promontorium Sacrum. Artemidoro (anterior ao geógrafo grego Estrabão) percorreu as costas lusitanas até este lugar tendo aí encontrado relíquias de um culto primitivo. Não havia neste Cabo nenhum altar, mas sim grupos de 3 ou 4 monólitos. As gentes locais acorriam a eles fazendo as suas libações e “obrigando” as pedras a girar. A estas estruturas megalíticas, a tradição popular deu diferentes nomes. Tanto no norte de Portugal, como na Galiza e nas Astúrias, deu-se-lhes o nome de mamoas, quando recobertas de terra e pedras, e isto devido à forma semiesférica de algumas que fazem recordar um seio de mulher, ou pelas inscrições e desenhos que se assemelham a ídolos representativos de deusas-mãe. Artemidoro dizia, acerca deste lugar, que os deuses aqui “vinham descansar à noite dos seus trabalhos e das suas viagens pelo mundo”. O geógrafo árabe Edrisi conta que os primeiros cristãos, muito antes da formação de Portugal, ergueram neste Cabo o Templo do Corvo, muito concorrido pelos fiéis que aqui faziam romarias e traziam oferendas. O mesmo geógrafo narra ainda o seguinte: “Ao alto do edifício estão dez corvos, que nunca desamparam aquele sítio; os sacerdotes da igreja contam deles coisas maravilhosas”. Este local está como que impregnado de mitologia e de história. O Infante D. Henrique sofreu, sem dúvida, a influência de todo o ambiente mágico do lugar. Teriam aqui também existido dois santuários: um dedicado a Héracles, a oriente (Sagres); e outro dedicado a Saturno, a ocidente (cabo de S. Vicente)." - Eduardo Amarante

O SIMBOLISMO MÁGICO-RELIGIOSO DOS BÉTILOS E DAS PEDRAS ORACULARES


No actualmente chamado Cabo de S. Vicente-Sagres viam-se outrora pedras sagradas, junto das quais se celebravam ritualmente certas cerimónias religiosas. Movers relaciona estas pedras com o culto dos bétilos. Segundo Roscher, os bétilos eram aerólitos, e supunha-se que neles existia vida divina, pelo que em certos lugares sagrados os veneravam, ungiam e coroavam.
Estas pedras tinham, sem dúvida, um simbolismo mágico-religioso.

“Em todas as épocas, escreve Leite de Vasconcelos, as pedras foram tidas, em certas circunstâncias, como divindades ou símbolos delas." Estas pedras, no que se refere a Portugal, encontram-se um pouco por todo o território, mas com especial incidência no Alentejo.

O bétilo é um termo de origem semítica (Beith-el) que significa “Casa de Deus”. Trata-se de pedras sagradas que eram um dos receptáculos da potência divina, como o Omphalos de Delfos. Simbolizam a união entre dois níveis de existência, sejam eles o Céu e a Terra, ou Deus e o Homem.

A pedra erguida, seja ela o linga hindu, o bétilo semítico, o menir céltico, o omphalos grego, o obelisco egípcio, é um símbolo universal, e concebido desde o começo como “Centro da Terra”, por onde passa o Eixo do Mundo ou Árvore cósmica que faz a comunicação entre o mundo dos mortos, o mundo dos vivos e o mundo dos deuses.

As pedras podem ser “carregadas” magneticamente, e os bétilos ou menires, quando se encontram no ponto de intersecção das energias cósmicas e telúricas, e são activados por rituais mágico-religiosos, funcionam como agulhas vitalizadoras dos pontos sensíveis ou chakras da Terra. É por isso que existem tradições em todo o mundo sobre pedras oraculares, e pedras que operam prodígios tanto no domínio da saúde como da fertilidade. Evidentemente que os construtores de dólmens e menires tinham profundos conhecimentos da anatomia terrestre, e só assim se explica o gigantesco esforço que foi necessário para a trasladação dos megálitos. Hoje só nos restam as suas ruínas e as tradições que sobreviveram ao império do tempo.

Extracto de "Universo Mágico e Simbólico de Portugal", Eduardo Amarante

A "ARCA DE NOÉ" NA SERRA DO ALVÃO




“Na Lusitânia, onde se inclui grande parte do território português, também existiam druidas, os quais, inclusive, faziam muitas referências ao dilúvio universal, falando mesmo de 7 criações e de 7 destruições.
Na Serra do Alvão existe uma pedra a que os historiadores chamam “Arca de Noé” que, aliada a inúmeras tradições orais, completa o quadro de referências a um dilúvio ocorrido em tempos imemoriais. Actualmente, esta sabedoria antiga perdeu-se e a nossa visão do mundo, tão materialista e consumista, turva o nosso olhar quando observamos a natureza e o céu, reduzindo toda a ciência a um objectivo de lucro e de benefício imediato.”

in "Universo Mágico e Simbólico de Portugal", Eduardo Amarante

O CARNAVAL E O SEU SIMBOLISMO



“O Carnaval, mais conhecido no meio rural como Entrudo (introitus, entrada) é um rito de passagem de um tempo velho para um tempo novo. Teve a sua última forma expressa nas Saturnais romanas, que compreendiam um conjunto de ritos visando a expulsão das forças malignas do Inverno, em vista da renovação da natureza.
Trata-se, fundamentalmente, de uma cerimónia de purificação de fim de Inverno (a morte que precede a vida) para dar início a um novo ciclo de fertilidade.
Originariamente, nessa ocasião acontecia um conjunto de ritos, tais como purgações, procissões mascaradas (as máscaras representam as almas dos mortos que apelam à vida, e a morte do Inverno), extinção e reactivação do fogo, com vista à destruição de tudo o que representava o tempo passado, para dar lugar, com o reavivar do fogo, à criação, à restauração das formas.
Estes dias de festa são caracterizados por uma licenciosidade sem malícia que funciona como uma catarse colectiva (abolição das formas, regresso ao caos, prenúncio de uma nova ordem, de um renascimento colectivo), onde se assiste à exteriorização da própria alegria. Nas aldeias de Portugal esta festa é “inteiramente espontânea e desorganizada. O trabalho é interrompido durante os três dias gordos, a ruptura com o quotidiano é total.
Em terras transmontanas, os festejos dos três dias de Entrudo correspondem às Bacanais de Março. Celebrizam-se pelas grandes comezainas, mascaradas e bailes.
O Carnaval é a expressão de antigos cultos agrários associados ao Sol. Em certas localidades queima-se ou mata-se o Meco, figura de palha que simboliza o Inverno ou a morte invernal da natureza. Desse modo, esta festividade aparece como vestígio remoto das cerimónias de purificação das forças malignas do Inverno, com vista à renovação da vegetação, cerimónias essas que, reforçamos, tiveram sua última forma de expressão nas Saturnais romanas.
Originariamente comportavam o sacrifício anual do Rei, que transparece nos actuais enterros do Entrudo nas suas várias formas, nas lutas do Verão e do Inverno, expulsões da Morte, etc., e caracterizavam-se pela sua total licenciosidade, prenunciando magicamente a alegria causada pela abundância que se adivinhava.
O Carnaval mergulha a sua raiz mais funda numa cerimónia de carácter religioso em vista da fertilidade.” – Eduardo Amarante